Meu pequeno país. De Gael Faye.

“Deus nos submete a provações para sabermos que não devemos duvidar dele. Deus parece nos dizer que o grande amor é feito de confiança. Não se deve duvidar da beleza das coisas, mesmo sob um céu torturador. Se você não fica fascinado com o canto do galo ou com a luz acima dos cumes, se não acredita na bondade de sua alma, então na luta mais, é como se já estivesse morto”

Um romance que transita entre a experiência limite de autoficção, ficção e memória. O rapper franco-ruandês estreia com um livro que aparenta ser um resgate de memórias, mas faz isso forjando um protagonista vivo e cativante: o pequeno Gabriel de 10 anos.

Gael é dono de um estilo literário poético e, de fato, emocionante. Retrata a singularidade do cotidiano infantil com detalhes sensíveis que passam despercebidos para a maioria das pessoas.

“Por mais que eu tente, não me lembro do instante em que começamos a pensar de modo diferente. A considerar que, a partir de então, éramos nós de um lado e, de outro, inimigos como Francis”

“Ainda me pergunto quando eu e meus amigos começamos a ter medo”

A escolha de um narrador criança permite pincelar os duros conflitos étnicos em Burundi a partir de um olhar inocente que aprende. O estilo poético desse ponto de vista nos faz atravessar a dura história de Gabriel, reconhecendo sua identidade esfacelada, filho de um empresário francês e uma cidadã ruandesa.

Pertencer a esse mundo partido torna-se um conflito paradoxal: ao mesmo tempo que assiste, protegido, ao genocídio de seu povo, precisa amadurecer e construir sua identidade em meio a uma luta desesperada em compreender suas raízes.

Uma criança que assiste à família de sua mãe ser assinada como animais, protegido pelo escudo social e financeiro proporcionado pelo pai que lhe permitirá a salvação por meio do exílio de seu lugar de origem.

Desse estranho lugar, a sombra do discurso confuso da política local, uma guerra civil, aparentemente inexplicável para alguém que tem apenas 10 anos, pesa sobre uma criança entre mundos.

É um livro tocante, não apenas por resgatar uma experiência tão profunda e singular, mas por conseguir fazer isso a partir de uma sensibilidade que nos retira da inércia e indiferença diante das guerras e dos horrores que assolam a humanidade nos quatro cantos do mundo.

Um romance em que aprendemos, com uma criança, a acreditar, mesmo quando tudo parece absurdo e impossível.