A Pulseira

Uma tarde de abril, logo após o almoço, meu marido me comunicou que queria me deixar. Fez isso enquanto tirávamos a mesa e as crianças ainda limpavam os restos de macarrão entre os dentes, enfiando os dedinhos gordos no fundo das bochechas. Aguardavam impacientes a sobremesa, uma brilhosa gelatina de creme de leite com morango que tremia molenga a cada puxão da toalha.

O doce já estava prestes a se desfazer, quando joguei os pratos na pia e bati com violência no tampo de madeira com a palma da mão. Segurei com firmeza o pano, quebrando a tensão do cabo de guerra que ameaçava sujar de vermelho o tecido alvíssimo que cobria a mesa. “Ninguém come mais sobremesa hoje!”

Com a surra que a minha mão levou do móvel, minha pulseira de ouro quebrou, estilhaçando pequenos pedaços reluzentes por todos os cantos da casa. Os pontos dourados iluminaram o ladrilho desbotado da cozinha, revelando o cheiro do azulejo fresco, recém-pintado com motivos florais, que Jacques, com seu rubi no dedo mindinho, havia me convencido a comprar. Era a última moda.

Ter um decorador que lhe diz como deixar a casa bonita era chique. Mesmo quando parecia um tanto excessivo. A mulher de um homem que ganha dez salários mínimos não pode ter uma sala sem cortinas de voal. Nem um banheiro sem uma pia de mármore e torneiras douradas. O sofá para a varanda, todo trançado em madeira, era algo que só deputado podia comprar. Ele me garantiu. Mas um homem que ganha dez salários mínimos pode dar um jeito. Foi assim com a pulseira de ouro.

Éramos namorados e eu achava que ele nunca pediria a minha mão. Confesso que pensei até em dar o golpe da barriga tão nervosa que estava com o meu aniversário de vinte e cinco anos se aproximando. Mas não foi preciso correr todo esse risco. Eu ganhei uma pulseira de ouro.

“Mas não é caro?”

“Não, eu agora trabalho em uma repartição” – ele explicou. Eu não sabia mensurar o quanto aquele presente era valioso e podia de fato selar um compromisso.

“Tem certeza?”

“Vale três meses de trabalho”, tentou simplificar.

“Mas isso não vai prejudicar as economias para o casamento?”

 “Um pouco.” – Só um pouco?

Nunca entendi porque uma pulseira e não um anel. Um anel com pedra era muito caro para um funcionário público concursado? Enquanto Jacques fazia todo tipo de malabarismo para comprar a prataria e o conjunto de louça de porcelana, indispensável para se ter o mínimo de dignidade, eu me afligia olhando para a tal pulseira de ouro.

“Jacques você acha que a minha pulseira é chique?”

“Meu bem, que tal a pintura das tulipas em azul?”

“Jacques, meu noivo me deu uma pulseira, você acha normal?”

“Deixa eu ver.” – ele segurou meu pulso e fez uma cara que parecia um bico de deboche, ou de nojo. “Em Copenhague é a última tendência”

“Onde fica isso?”

“Tá um arraso essa cozinha. Fiz um verdadeiro milagre com uma merreca!”

“Não tem flores demais?”

“Você não entende nada. Pulseira de ouro como essa. Fininha. É elegante. Relaxa que esse casamento vai sair garota.”

Na época, eu tinha outro pretende. O Sávio do andar de cima da pensão. Era louco por mim. Mas ele era estudante ainda. De medicina. Mas estudante. Ainda ia demorar uns bons quatro anos até poder casar. Era muito. Além disso, eu já estava andando com essa pulseira de ouro pra cima e pra baixo, se é que alguém podia entender o que isso significava. E tinha também as noites atrás da árvore retorcida, na calçada. Eu já tinha permitido mais que um sarro. Se eu não casasse, certeza que ia ficar falada. O tronco era fino demais. Não escondia nada.

As crianças de olhos arregalados, amedrontadas com o meu grito estridente, desistiram e saíram da mesa cabisbaixas. Fiquei arrependida, mas já era tarde demais. Voltar atrás era impossível.

“Mamãe, a gente pode brincar lá fora?”

“Pode. À noite eu sirvo a sobremesa.”

“Você ouviu o que eu disse?”

“Sim.”

“E aí?”

Percebi que um floco brilhoso da pulseira tinha voado em cima da escultura medonha do pirata, que ficava ao lado do vaso com a palmeira-leque escolhido por Jacques. Foi uma fase difícil. Após alguns anos de trabalho na repartição, o tédio deu lugar a aulas de escultura no fim do dia. Ele pensava que era um artista e fiquei várias noites sem dormir, imaginando que largaria o trabalho e que eu passaria fome com três filhos para criar.

Ele arrumou um professor para elogiar qualquer monstruosidade que esculpia em argila. Até que um dia beberam juntos muito uísquee a bajulação desproporcional ficou evidente. Ainda sim, ele cismou que o pirata tinha sido sua melhor obra e decidiu colocá-lo em nossa sala, bem na entrada. O que me fazia dar as explicações mais loucas, dependendo do convidado da vez.

“Ah, isso foi um presente do chefe dele, é meio esquisito, mas veio da Grécia, é muito chique.” Eu dizia em dias de festa. “Essa escultura foi uma caridade do meu marido. Tão generoso. Um amigo em dificuldades do escritório estava vendendo tudo.” Eu dizia para mamãe. “Isso? Ah é uma escultura que encontrei em uma loja de antiguidades. A dona disse que traz bons fluídos para a casa e afasta mau-olhado” Disse uma vez para uma vizinha fofoqueira.

Foi nessa época que a minha irmã mais nova casou. Com Sávio, o médico da pensão. Ela sim ganhou um anel de noivado e deu orgulho para a nossa mãe. De ouro branco, com uma safira muito azul, rodeada de pequenos diamantes. Ela veio aqui em casa só para me mostrar.

“É lindo, não acha?”

“Cafona. Hoje ninguém mais usa anel de noivado.”

“Quem te disse?”

“O Jacques”

“Esse veado não sabe de nada”

“Ele não vai decorar a sua casa?”

“Claro que não! Só você. Ridícula. Aceitar que uma bicha arrogante coloque uma escultura dessas bem no meio da casa.”

Eu fiquei alguns meses sem querer ver nem a minha irmã, nem a casa que ela estava preparando sozinha, só pesquisando em revistas da Casa Malu.

No dia da festa de casamento, meu marido decidiu achar o anel de safira lindo. Mesmo quando já estávamos em casa, ele não parava de falar no azul da pedra, se eu tinha gostado. “É lindo sim. A Marcinha teve muito sorte. Mamãe disse que…”. Ele encerrou o assunto, virou para o lado e dormiu.

“Pode ir embora. Eu me viro.”

“Só isso?”

“O que você quer? Que eu me mate? Que eu saia pelada, gritando pela rua? Que eu dê pro vizinho bêbado e depois fique com nojo de mim mesma? Que eu destrate os meus filhos? Pois hoje vou fazer o jantar mais gostoso que já preparei na vida. Estou muito bem. Pode ir embora.”

Ele sentou-se à mesa e pediu um pouco da sobremesa. Eu deixei. Fiquei observando como era belo seu bigode sujo de leite. Eu sorri. Ele sorriu de volta e se levantou apressado. Pegou a mala que já estava pronta no quarto. Deu duas borrifadas de perfume no pulso e colocou o resto em baixo das orelhas com o indicador. Ajeitou os cabelos com um pouco de pasta, me encarando pelo grande espelho do corredor.

As crianças entraram correndo e amassaram a risca do terno feita por mim no dia anterior. Ele não se zangou. Deu um beijo na testa de cada uma. Disse que iria embora por uns tempos. Que ficassem com a mamãe. Mas que voltava para vê-los. As crianças não entenderam muita coisa. Estavam acostumadas com a presença volátil do pai em casa. Continuaram a gritaria em direção ao quintal.

“Espera.”

“O quê?”

“Você deu um anel pra ela?”

“Pra quem?”

“Pra essa mulher que está te esperando.”

“De novo essa história, Susana? Que besteira!”

“Responde João Alberto! Você deu um anel para essa vadia?”

“Quer saber de uma coisa? Dei sim. E aí? É um costume besta. Mas tem muita coisa sem sentido nessa vida. A gente muda, né?”

“Claro. A gente muda. Qual foi a pedra?”

“Uma safira.”

“Tenho certeza que ela deve ter amado.”

Ele saiu com as têmporas já suadas e certa palidez no rosto. Soltou um pouco o nó da gravata. “Tá tudo bem?” Ele partiu sem responder. Pude perceber um suspiro de alívio quando entrou no fusca e deu a partida. Mas ainda pude ver pela janela o carro, a certa altura, desgovernado, batendo em frente à árvore retorcida que permanecia a mesma de quando éramos apenas crianças apaixonadas.

Esse conto foi escrito para o Desafio de Aquecimento da comunidade de escritores @carreira_literaria a partir das seguintes instruções:

Você deverá escrever um conto de no máximo 4 laudas (sendo 1 lauda = 2.000 caracteres com espaçamento), cujo começo deve ser o trecho abaixo:

“Uma tarde de abril, logo após o almoço, meu marido me comunicou que queria me deixar. Fez isso enquanto tirávamos a mesa (…)” [Abertura do livro “Dias de abandono”, Elena Ferrante]

Resultado do desafio

Thais Nunes

@thais.fnunes

Meu pequeno país. De Gael Faye.

“Deus nos submete a provações para sabermos que não devemos duvidar dele. Deus parece nos dizer que o grande amor é feito de confiança. Não se deve duvidar da beleza das coisas, mesmo sob um céu torturador. Se você não fica fascinado com o canto do galo ou com a luz acima dos cumes, se não acredita na bondade de sua alma, então na luta mais, é como se já estivesse morto”

Um romance que transita entre a experiência limite de autoficção, ficção e memória. O rapper franco-ruandês estreia com um livro que aparenta ser um resgate de memórias, mas faz isso forjando um protagonista vivo e cativante: o pequeno Gabriel de 10 anos.

Gael é dono de um estilo literário poético e, de fato, emocionante. Retrata a singularidade do cotidiano infantil com detalhes sensíveis que passam despercebidos para a maioria das pessoas.

“Por mais que eu tente, não me lembro do instante em que começamos a pensar de modo diferente. A considerar que, a partir de então, éramos nós de um lado e, de outro, inimigos como Francis”

“Ainda me pergunto quando eu e meus amigos começamos a ter medo”

A escolha de um narrador criança permite pincelar os duros conflitos étnicos em Burundi a partir de um olhar inocente que aprende. O estilo poético desse ponto de vista nos faz atravessar a dura história de Gabriel, reconhecendo sua identidade esfacelada, filho de um empresário francês e uma cidadã ruandesa.

Pertencer a esse mundo partido torna-se um conflito paradoxal: ao mesmo tempo que assiste, protegido, ao genocídio de seu povo, precisa amadurecer e construir sua identidade em meio a uma luta desesperada em compreender suas raízes.

Uma criança que assiste à família de sua mãe ser assinada como animais, protegido pelo escudo social e financeiro proporcionado pelo pai que lhe permitirá a salvação por meio do exílio de seu lugar de origem.

Desse estranho lugar, a sombra do discurso confuso da política local, uma guerra civil, aparentemente inexplicável para alguém que tem apenas 10 anos, pesa sobre uma criança entre mundos.

É um livro tocante, não apenas por resgatar uma experiência tão profunda e singular, mas por conseguir fazer isso a partir de uma sensibilidade que nos retira da inércia e indiferença diante das guerras e dos horrores que assolam a humanidade nos quatro cantos do mundo.

Um romance em que aprendemos, com uma criança, a acreditar, mesmo quando tudo parece absurdo e impossível.

Mariana Ximenes na Amazônia

Escutou a musiquinha do Jornal Nacional.

_Boa Noite — disse William Bonner.

_Boa Noite — respondeu, e logo pôs-se a colocar os pratos do jantar na mesa. Faltava pouco para o guisado estar pronto. Poderia acompanhar com tranquilidade a cobertura do impeachment da Dilma no Senado. O caldo engrossaria justamente durante aquela reportagem de abertura sobre crianças com sobrepeso no Brasil. Pegou todos os talheres, copos, travessas limpos, organizando-os em seus devido lugares. Será que a Clarinha tinha almoçado? Claro que sim! Foi justamente quando a Sandra Annenberg mostrava os níveis de desemprego no Brasil que Clara cuspiu o brócolis fora, praguejando contra seu chefe do escritório. Respirou aliviada, pois o guisado de legumes seria o suficiente para encerrar os anseios alimentares do dia.

Sentou-se a tempo de acompanhar a fala do senador Magno Malta. Pensou que ele parecia muito com Sidney Magal. Se vestisse camisas coloridas ficaria perfeito. “Quero vê-la sorrir, quero vê-la cantar, quero ver o seu corpo dançar sem parar!” Imaginou Magno dançando e como seria engraçado uma palhaçada dessas naquele circo.

Todos falavam em corrupção, mas corrompido mesmo é Sílvio Santos. O Sílvio todos perdoam. Pegou o controle e zapeou para o SBT. O Sílvio perguntava a uma moça porque ela usava aquele vestido decotado. Um decote que recortava todo o corpo, dos seios às pernas. Ele dizia que aquilo era uma indecência e que o pai ou o marido dela eram uns idiotas de deixar ela usar aquela roupa. Ela se defendeu e disse que era roupa pra televisão. Olhou para si e seu vestido de estampa florida. Tinha um rasgão na barra e uma mancha de café na altura da cintura. Aquilo não era roupa pra televisão. Trocou de roupa para jantar.

_Mamãe, por que a senhora está tão arrumada?

_Quero estar bem para a novela das oito. A Camila Pitanga nem é assim tão bonita para o Santo.

_A senhora lavou meu uniforme de amanhã?

_Lavei sim. Enquanto a Ana Maria Braga estava falando com o Pe. Fábio de Melo, eu vi que tinha uma mancha de batom e caprichei no alvejante — filha você é tipo a Paola de Oliveira com a Maria Fernanda Cândido naquela série “Felizes pra sempre”?

_É mãe, é parecido com isso… — mas deixa a minha vida em paz e vai ver sua televisão.

Percebeu que aquela chatice do ranking do Campeonato Paulista já deixava o Bonner com aquele sorrisinho final. Precisava se apressar. Lavar toda a louça. Sabia que o Santo, o galã da Novela Velho Chico, tinha morrido ao nadar no Rio São Francisco. Quando o jornal terminou nem teve musiquinha, um silêncio, por isso ela quase perde o começo da novela. Santo morreu, mas ia casar com Tereza, como aquilo era possível?

Hoje é dia de Profissão Repórter. Estava curiosa para ver o drama das pessoas com câncer que não conseguiam atendimento em hospitais públicos. Mas o que realmente aguardava era finalmente poder ver a estreia de SuperMax. Tinha acompanhado tudo no VideoShow. Estava terminando de temperar a salada para servir fresquinha na mesa quando ouviu a música do Michael Jackson, tanratâ tanrantã tan tan tan. Mariana Ximenes e Cleo Pires falaram ao Otaviano Costa que seria um novo Big Brother, com Pedro Bial na Amazônia! Nossa! Aquilo seria incrível! Um reality no meio da floresta e com suas atrizes preferidas! Elas ainda iriam concorrer a um super prêmio em dinheiro. Mas ela já eram tão ricas… Deviam fazer aquilo pela fama e pela aventura, pensou.

Quando a estagiária do Caco Barcellos entrevistou uma senhora que fazia o papel de enfermeira do seu marido no hospital, ela chorou. Como pode uma coisa daquelas? Cadê os políticos desse país? Todos corruptos!! Lembrou de novo do Silvio Santos e zapeou para o SBT, mas antes parou no programa da Sabrina Sato. Aquela garota também era do Big Brother. Ela bem que poderia participar de SuperMax. Mas nenhum brother estava na nova série, só o Bial. Estranho. Zapeou mais um pouco e viu que Danilo Gentili estrevistava a Elke Maravilha. A Elke trabalhou com o Sílvio muitos anos e ele nunca falou da roupa dela. Mas a Elke usa roupa, maquiagem, sapatos e cabelo de televisão. Nunca tinha visto ninguém igual a Elke. Só estrela de televisão.

No café de fim de tarde, estava assistindo o Datena falando sobre um caso do cunhado da Ana Hickmann. Ele matou o fã em legítima defesa. Como pode alguém imaginar que vai ficar com uma estrela de televisão? Mas tem gente que é assim, se confunde com o que está na tela. Chega um lunático desse e sai querendo matar todo mundo. Isso é coisa de filme de ação. Teve tanto medo que foi certificar-se se tudo estava devidamente trancado. Não podia dar bobeira como a Ana Hickmann que quase parte dessa pra melhor.

Mas e SuperMax? Estava perdendo. Já devia ter começado! Já estava cansada de ver Tatá Werneck e Fábio Porchat se beijando. O que eles estavam pensando? Que vale tudo pela audiência? Ela não! Só assistia a programas e novelas de qualidade. Todos os dias acompanhava o Jornal Nacional, o melhor da televisão brasileira. Se mantinha informada pelo Facebook no seu smart. Sabia que a Sacha tinha virado modelo e que o Jean Willys tinha cuspido no deputado. Naquele deputado que quer estuprar mulheres. Um horror!

Mas onde estava o controle? Devia ter deixado cair debaixo do sofá. Só pode. Estava bem ali, na mesinha ao lado. Afastou o sofá já nervosa. Com certeza SuperMax já devia ter começado. O Bial já devia estar falando, e ela perder o controle assim? Era a última vez dele. Ela já tinha visto no instagram do Tiago Leifert. Ele era seu novo substituto. Procurou o objeto por toda a sala enquanto o Porchat batia na bunda da Gretchen. Aquela mulher não tinha morrido? Olhou debaixo do rack, da mesa de jantar. Tinha se levantado? Foi até o quarto, revirou lençóis, olhou debaixo da cama. Nada. Foi ao banheiro, olhou sobre a pia. Onde podia ter deixado esse controle?

Respirou fundo. Precisava ter calma. Podia estar na cozinha! Claro! Refez mentalmente seu percurso da cozinha. Quando a Sato começou uma entrevista com BelaGil ela tinha se levantado e ido tomar água. No copeiro não estava, mas podia estar dentro da geladeira. Óbvio! Quantas pessoas não esquecem até celular dentro da geladeira? Revirou frutas, legumes, travessas. Tirou tudo. Bebeu mais um copo d’água. Comeu um pedaço que restava do bolo de chocolate. Ela estava perdendo a estreia de Supermax enquanto a Tatá não parava de cantar com aquela voz terrivelmente desafinada.

Como poderia dormir sem assitir aquela estreia? O que seria da sua vida? Como poderia acompanhar a série sem ver o primeiro capítulo? Ele era essencial! Se o perdesse não teria mais como acompanhar SuperMax e estaria obrigada a zapear entre o Gentili ou talvez o novo programa do Porchat. Estava torcendo tanto pela Mariana Ximenes… Ela merecia ganhar o prêmio. Deve ser um sacrifico horrível ficar enclausurada no meio da amazônia com um monte de gente estranha, só não a Cléo Pires, elas deviam se conhecer.

Suas noites estavam fadadas ao fracasso. Poderia jogar cartas com sua filha? Assistir ao Sílvio Santos maltratando um traveco? Poderia até tentar ver Dez Mandamentos, mas da última vez que viu um extintor de incêndio na Antiguidade sentiu até náuseas de assistir àquela novela. Não. Precisava ver a estreia de SuperMax! Urgente! Era a única saída para o seu fim de noite. O desfecho perfeito depois de um dia repleto de Louro José, Fátima Bernades e Chocolate com Pimenta no Vale a Pena Ver de Novo.

Ela nem tinha Netflix. Talvez fosse a hora de finalmente adquirir sua conta e assistir aquele tal de Heisenberg. Parece que tinha até um tal de Narcos com o Wagner Moura. Não poderia ser assim tão ruim. Ele fez o Olavo Novaes em Paraíso Tropical. Foi ótimo! Mas, não! Sua vida já tinha um cronômetro e não seria nada fácil inserir o Netflix nela. Novela das seis, novela das sete, jornal nacional, uma zapeada aqui e ali, entre Record e até TV Brasil, pra ver a Sônia Braga quando estava passando “O Beijo da Mulher Aranha”. Sentia falta dela na TV. Novela das oito. Mais uma zapeada quem sabe para rever um pouco a reprise de Maria do Bairro. E para encerrar sua noite precisava assistir à estreia da nova série. Não tinha como entrar Netflix! Era impossível! Se sentiu meio tonta e apagou. Clara, quando viu sua mãe ali estendida, não entendeu nada.

_Mãe, a senhora não estava vendo TV?

_Estava sim… — respondeu ainda um tanto atordoada — mas perdi o controle.

_A senhora perdeu o controle? Teve algum ataque histérico?

_Não! Perdi o controle remoto enquanto estava vendo a Tatá Werneck. Perdi a estreia de SuperMax!

_Mas mamãe por que a senhora não mudou o canal na própria televisão?

_É, minha filha, acho que realmente perdi o controle.

Storytelling e engajamento: 4 lições de Cabras da Peste

Cabras da Peste estreou no Netflix já conquistando o Top 10 da plataforma. O sucesso do filme tem seus segredos e não se limita ao time de atores de peso que inclui o talentoso e querido Matheus Nachtergaele.

O filme reúne características importantes da técnica de storytelling que torna a história forte e cativante para um grande público.

Ainda que a produção do filme tenha problemas técnicos evidentes, eles não interferem em nada para o sucesso e a simpatia geral do filme com o público. Prova de que a história é mais importante para o espectador do que qualquer efeito especial.

Por isso trouxe 4 características que tornam Cabras da Peste uma história apaixonante para você aplicar no seu conteúdo e engajar sua audiência.

 1.   Empatia

Falar sobre empatia parece algo abstrato e batido. A necessidade de sermos empáticos em processos de inovação já virou quase um clichê, mas na prática o que vejo é que quase nunca isso acontece.

No geral as pessoas tendem a falar de si e dos seus gostos pessoais.

Empatia significa conhecer bem o seu público. Tão bem a ponto de você saber suas preferências, desejos, medos, dores e levar isso para o seu conteúdo de forma a se conectar.

Não se trata do livro que você leu e gostou, mas da história que se conecta com o seu público. Vejamos com Cabras da Peste.

O filme conhece seu público muito bem. Ele sabe que o gênero policial e filmes de lutas marciais estão no gosto popular e brinca com isso, fazendo piada com a estrutura do gênero.

Todo mundo sabe que personagem policial de verdade sempre se joga para salvar o companheiro em alguma cena. Trindade, o policial de escritório jamais fez isso, o que ajuda a gerar humor.

Além disso, quem nunca se sentiu subestimado no trabalho? Essa é uma questão que gera conexão com quase todo mundo.

Pense. Quais filmes, livros, músicas seu público gosta? Explore isso no seu conteúdo. Pense nas estruturas narrativas. Elas podem auxiliar inclusive na composição da forma do conteúdo.

 2.   Contraste

 O contraste é bem trabalhado em Cabras da Peste. Inspirado no estilo buddycop: tramas em que duas pessoas muito diferentes precisam trabalhar juntas para solucionar um problema, Trindade e Bruceuilis formam uma dupla atrapalhada no resgate da cabra Celestina.

Uma boa história sabe trabalhar o contraste para evidenciar características e gerar uma boa tensão no desenvolvimento dos conflitos.

Trindade, o policial de escritório, se idealiza como uma mente pensante, o cérebro da operação, mas é um desastre em operações no campo.

Bruceuilis é fera em artes marciais, mas na pacata Guará não há muito o que fazer:

“Isso é lá trabalho para um cabra preparado como eu?”

diz Bruce quando perde Celestina.

A dupla funciona muito bem para evidenciar o contraste entre o policial de verdade e o que não é, base do conflito da trama. E até mesmo, já como subtexto, os conflitos entre norte e o sul do país.

Tudo de forma leve, com um humor que não ofende ninguém.

Sempre pesquise: quais os conflitos vivido pelo seu público? Busque histórias que explorem essa tensão e trabalhe os contrates. Mas atenção nada de forçar a barra e ser apelativo. Com o storytelling sempre devemos trabalhar com sutileza.

 3.   Diversidade

Um ponto alto do filme para mim é como ele traz diferentes referências da comédia brasileira e faz essa mistura funcionar muito bem: atores e formatos narrativos como Porta dos Fundos, Choque de Cultura, além de artistas populares como Falcão e Rossicléia.

Todos eles dialogam e a história consegue se conectar com diferentes gerações e perfis. Inclusive inserindo críticas políticas, de forma muito sutil e inteligente.

Quando pensar na sua audiência esteja atento à diversidade e como você pode estruturar seu conteúdo de forma a comunicar com o conjunto.

 4.   Diálogo com boas referências

Um das principais referências da obra com certeza é “Um tira da pesada” com Eddy Murphy e o próprio diretor Vitor Brandt cita o filme como uma inspiração para sua comédia policial à brasileira.

Se o objetivo é engajar audiências, sempre devemos pensar: qual conteúdo fez isso e fez bem?

Então, partimos para dissecar a estrutura da narrativa de forma a entender o que pode funcionar para os nossos objetivos, assim como fiz aqui nesse texto com Cabras da Peste.

Se inspirar e aprender com boas histórias é nosso dever de casa.:)

Sobre inícios: como gerar impacto e conquistar o leitor para a sua história

Colecionar bons inícios é um hábito que todo escritor deve ter. Inaugurar um mundo fictício significa romper um estado anterior. Para construir essa sensação de preparo é necessário um cuidado extra não apenas na escolha ou preparação da cena, mas em como isso será dito.

Uma obra literária não é apenas um relato, mas uma forma de contar em que a palavra cria um mundo novo. É inevitável que, no início, o silêncio seja rompido, dialogando com referências culturais, com outras obras e outros escritores que façam parte do pacto invisível entre escritor e leitor.

O objetivo deve ser chegar em uma fórmula capaz de dar conta da novidade, mas que também seja inteligível e capaz de atrair.

Vamos analisar aqui 4 estratégias para você considerar nas escolhas sobre como iniciar seu conto, romance ou novela que funcionem como uma síntese, uma apresentação da obra como um todo e consiga também encantar e enlaçar o leitor para sua história.

Para isso, precisamos aprender, com os mestres da literatura, a bolar um convite irrecusável para um novo universo desconhecido, mas que promete. Vamos lá!

1.APRESENTAÇÃO DO NARRADOR

Uma das preocupações que devemos ter ao iniciar nossa história é sobre a consciência da escolha do foco narrativo e como podemos apresentar a voz do narrador de forma interessante. Vamos com o mestre Machado de Assis em “A Cartomante”

HAMLET observa a Horácio que há mais causas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.

No conto, a primeira frase do primeiro parágrafo já nos apresenta o brilhante narrador irônico do escritor que se coloca acima dos personagens. Ao comparar a fala de Rita com a de Hamlet, afirmando que aquela citava o famoso personagem sem saber, já incita o leitor com uma espécie de tragédia anunciada.

Ao mesmo tempo, o narrador faz troça da ignorância da personagem, inaugurando uma focalização onisciente não tão neutra, que irá, durante o desenrolar da trama, relevar as diferentes vozes dos personagens para a construção da tensão da história.

2.O TOM DA HISTÓRIA

Entender o tom da história e começar mostrando ao seu leitor qual o clima em que a trama estará submersa pode ser definitivo para alguém continuar ou não na leitura.

UM EDIFÍCIO CINZENTO E ATARRACADO, de trinta e quatro andares apenas. Acima da entrada principal, as palavras CENTRO DE INCUBAÇÃO E CONDICIONAMENTO DE LONDRES CENTRAL e, num escudo, o lema do Estado Mundial: COMUNIDADE, IDENTIDADE, ESTABILIDADE.

Acho que nem precisa dizer que estamos diante do primeiro parágrafo de Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley. O tom de distopia é inaugurado de forma certeira: sabemos que estamos diante de uma obra que dialoga com os clássicos 1984 e Fahrenheit 451, mas que inaugura um universo singular de crítica e absurdo sobre um possível futuro da humanidade.

3.PALAVRAS ARREPIANTES: O ESTILO

Construir o estilo da sua escrita é fundamental e o bom escritor costuma caprichar nos inícios, momento em que precisa seduzir o leitor por meio de palavras. Nada mais impactante que o estilo da nossa maravilhosa Clarice Lispector. Vamos de O ovo e a galinha.

De manhã na cozinha sobre a mesa vejo o ovo. Olho o ovo com um só olhar. Imediatamente percebo que não se pode estar vendo um ovo. Ver um ovo nunca se mantém no presente: mal vejo um ovo e já se torna ter visto um ovo há três milênios.

Uma boa história cativa, mas o que entendemos como obra literária, diz Terry Eagleton, consiste em “tomar o que é dito nos termos como é dito”. A linguagem é constitutiva da experiência e não apenas mero veículo, reforça o crítico literário. O trabalho de burilar o texto é fundamental. Vejamos nosso exemplo acima.

A escritora trabalha o ritmo e cadência das frases de forma a tornar o primeiro parágrafo uma espécie de prosa poética. A repetição da palavra ovo gera um efeito estético que nos faz entrar na reflexão e no fluxo de consciência da personagem sobre a compreensão filosófica da origem e do ser. Um estilo que é a marca de Clarice Lispector. O desafio do escritor está justamente em encontrar o seu estilo. A sua palavra.

4.ATITUDE EMOCIONAL

Uma história pode conquistar o leitor, utilizando técnicas para emocionar o leitor logo de cara, sem ficar dando voltas. Logo no início, lança um conflito profundamente interessante a ponto de despertar tamanha emoção no leitor que ele se sente obrigado a saber, afinal, qual será o destino daquela personagem. Vamos com um mestre na construção de efeitos literários potentes: Ernest Hemingway.

Era um velho que pescava sozinho em seu barco, na Gulf Stream. Havia oitenta e quatro dias que não apanhava nenhum peixe. Nos primeiros quarenta, levara em sua companhia um garoto para auxiliá-lo. Depois disso, os pais do garoto, convencidos de que o velho se tornara salao, isto é, um azarento da pior espécie, puseram o filho para trabalhar noutro barco, que trouxera três bons peixes em apenas uma semana.

Não tem como não querer continuar na história desse velho para conhecer o motivo de tanto azar. A gente mal começa a ler e já se sente completamente envolvido pelo personagem que, miseravelmente, não consegue pegar nada há oitenta e quatro dias!

Há uma construção de empatia muito intensa na medida em que nós nos identificamos com tamanha miséria. Afinal, todos nós também vivemos nossos sofrimentos e a dor das personagens muito nos interessa.

Listei apenas quatro estratégias, mas há ainda muitas possibilidades quando se pensa no estilo de cada autor e as mais diversas estratégias literárias para a construção de tom, por exemplo.

Para esse post vamos ficar com aquilo que considero fundamental: foco narrativo, tom, estilo e empatia. Mas como boa colecionadora de inícios trarei aqui outros posts sobre esse tema. Espero que curtam! 🙂

4 técnicas narrativas de Cat Person: o conto de 1 milhão de dólares

 Diante de fenômenos virais como fotos e vídeos de gatinhos fofos, um escritor pode se sentir desanimado em escrever para uma audiência nem sempre disposta a ler mais que 280 caracteres. No entanto, Kristen Roupernian é uma prova de que a literatura no digital resiste e que, sim, um conto de 20 páginas pode ser um fenômeno de público impressionante.

 A escritora, antes desconhecida, gerou interesse ao publicar um conto na revista New Yorker, em 2017, que superou o número de acessos de todos os outros trabalhos publicados naquele ano. Devido a repercussão, a escritora fechou um contrato para um livro, que incluía Cat Person, de nada menos que 1 milhão de dólares! No Brasil, os direitos foram comprados pela Companhia das Letras.

Antes de levantar teorias da conspiração ou alguma jogada de marketing mirabolante, prefiro entender quais ferramentas a escritora mobilizou e que podem justificar o sucesso do conto.

Listei aqui 4 técnicas muito bem exploradas por Roupenian que todos escritor deve conhecer para textos mais engajantes. Contém spoiler!

1. Empatia

Uma das principais potências da ficção é a empatia. Desde Platão e Aristóteles há uma rica discussão de como a ficção mobiliza a empatia e certamente a resposta passa pelo processo de identificação. Isso significa que o escritor deve ter um interesse vivo pelas peculiaridades das pessoas. Quer uma experiência mais potente de empatia do que escrever sobre uma noite de sexo não muito legal que a maioria de nós já viveu?

O crítico James Wood cita um interessante exemplo de empatia do escritor, a personagem Elizabeth Costello, uma famosa romancista criada por Coetzee. Costello diz que imaginar como é ser um morcego é a própria definição de um romancista.

“Posso imaginar ser um cadáver, diz Costello, por que não posso imaginar ser um morcego?”

Gerar no leitor a possibilidade de se colocar no lugar de quem sofre, exige do escritor desenvolver conflitos que qualquer um poderia viver também. Em Cat Person, a história de Margot, de 20 anos, e Robert, de 34 anos, temos um vivo exemplar da potência da hashtag: #metoo. Milhares de mulheres conseguiram se ver exatamente na mesma situação de Margot: administrando um flerte inicial para algo que se tornaria a pior decisão de sua vida.

2. Trama Profunda

Quando escrevemos devemos ter em mente o efeito que queremos gerar para o leitor. Sobre o que gostaríamos de refletir com essa história? A literatura é a exploração do humano e a história em si, a sucessão de acontecimentos, é uma estrutural superficial que deve estar totalmente carregada de significados. É a camada profunda do texto de que trata Ricardo Piglia.

Do ponto de vista superficial Cat Person poderia ser apenas a história de “uma garota egocêntrica e crítica que se envolve com um cara pelo qual não tem atração física”, diz um leitor aparentemente desavisado nas redes sociais. No entanto, quem lê o conto percebe que a escritora desenvolve certa densidade simbólica no fio condutor da trama. Destaco aqui a diferença de idade da protagonista em relação a Robert.

O jogo entre Margot e Robert se torna controverso justamente porque ela, muito jovem, idealiza uma relação, aliás, como muitas de nós, em virtude de sua inexperiência. Já Robert, experiente, demora a aceitar o flerte, o que gera ainda mais ansiedade por parte da protagonista. Essa tensão é importante para efeito equívoco do clímax do conto.

“Ela é tão perfeita, ela o imaginou pensando. Ela é tão perfeita, o corpo dela é perfeito, tudo nela é perfeito, ela tem só vinte anos, a pele dela é impecável, eu quero transar com ela, quero transar com ela mais do que jamais quis com qualquer outra pessoa, quero tanto que acho eu vou morrer” 

3. Narrador não confiável

Uma dos temas que mais me fascinam na escrita criativa é com certeza como construir um narrador interessante e potente para a história. Um narrador mal construído pode detonar a construção do efeito que você precisa gerar na sua história ao passo que um narrador bem desenvolvido consegue tornar uma história, aparentemente simples, em uma trama complexa.

Roupenian trabalha com muita habilidade o discurso indireto livre, técnica narrativa que permite construir um relato entre a onisciência e a parcialidade. O narrador de Cat Person evidencia a posição de dubiedade de Margot:

Não era exatamente medo de que ele tentasse forçá-la a fazer algo que não queria, mas insistir em parar agora, depois de forçar a barra para continuar, a faria parecer mimada e instável, como se tivesse pedido um prato num restaurante e, assim que a comida chegasse, mudasse de ideia e pedisse para devolver

Pra mim esse parágrafo reflete muito toda a tensão e dubiedade da trama. Se por um lado, Margot acredita que seria inconveniente demais dizer que não queria mais, por outro sabemos que isso pode ser insegurança e que ela poderia muito bem interromper o processo, ainda que fosse muito desagradável.

Essa divergência é a polêmica que mobiliza , não apenas mulheres, mas também homens, uma grande discussão nas redes sobre o conto. O artifício permite que todos, de certa forma, estejam corretos, considerando que cada um se relaciona de forma singular com a história. Para mim, esse é o efeito mais surpreendente de Cat Person!

Cabe ainda dizer que a onisciência é seletiva da mente de Margot, o que gera um efeito de conhecer a história a partir da vivência pessoal da personagem, mesmo que escrito em terceira pessoa. Talvez por isso a maior parte dos leitores engajados sejam mulheres.

4. Temática

Por fim chegamos a um dos pontos principais que justificam o fascínio de Cat Person: tratar dos relacionamentos contemporâneos de uma perspectiva feminista.

Eu particularmente defendo o lugar de fala na literatura. Poder acompanhar uma história em que a protagonista é uma mulher escrita por uma mulher com certeza gera um processo de empatia visceral. É dar voz a histórias que nunca tinham sido contadas sob essa perspectiva.

Mas acredito também que apenas escrever sobre uma temática relevante é insuficiente para que tenhamos uma boa história. A ficção é, antes de qualquer coisa, a capacidade de se colocar no lugar do outro. Um escritor deve ter a liberdade de escrever o seu ponto de vista sobre o outro seja ele quem for.

Assim como o leitor pode empatizar com um velho em uma luta feroz com o mar, também pode se perceber como com uma madame que se chama Emma Bovary ou se sentir uma menina nordestina com o esquisito nome de Macabéa. Literatura é, antes de ser um panfleto, arte e arte sobre o humano.