Mariana Ximenes na Amazônia

Escutou a musiquinha do Jornal Nacional.

_Boa Noite — disse William Bonner.

_Boa Noite — respondeu, e logo pôs-se a colocar os pratos do jantar na mesa. Faltava pouco para o guisado estar pronto. Poderia acompanhar com tranquilidade a cobertura do impeachment da Dilma no Senado. O caldo engrossaria justamente durante aquela reportagem de abertura sobre crianças com sobrepeso no Brasil. Pegou todos os talheres, copos, travessas limpos, organizando-os em seus devido lugares. Será que a Clarinha tinha almoçado? Claro que sim! Foi justamente quando a Sandra Annenberg mostrava os níveis de desemprego no Brasil que Clara cuspiu o brócolis fora, praguejando contra seu chefe do escritório. Respirou aliviada, pois o guisado de legumes seria o suficiente para encerrar os anseios alimentares do dia.

Sentou-se a tempo de acompanhar a fala do senador Magno Malta. Pensou que ele parecia muito com Sidney Magal. Se vestisse camisas coloridas ficaria perfeito. “Quero vê-la sorrir, quero vê-la cantar, quero ver o seu corpo dançar sem parar!” Imaginou Magno dançando e como seria engraçado uma palhaçada dessas naquele circo.

Todos falavam em corrupção, mas corrompido mesmo é Sílvio Santos. O Sílvio todos perdoam. Pegou o controle e zapeou para o SBT. O Sílvio perguntava a uma moça porque ela usava aquele vestido decotado. Um decote que recortava todo o corpo, dos seios às pernas. Ele dizia que aquilo era uma indecência e que o pai ou o marido dela eram uns idiotas de deixar ela usar aquela roupa. Ela se defendeu e disse que era roupa pra televisão. Olhou para si e seu vestido de estampa florida. Tinha um rasgão na barra e uma mancha de café na altura da cintura. Aquilo não era roupa pra televisão. Trocou de roupa para jantar.

_Mamãe, por que a senhora está tão arrumada?

_Quero estar bem para a novela das oito. A Camila Pitanga nem é assim tão bonita para o Santo.

_A senhora lavou meu uniforme de amanhã?

_Lavei sim. Enquanto a Ana Maria Braga estava falando com o Pe. Fábio de Melo, eu vi que tinha uma mancha de batom e caprichei no alvejante — filha você é tipo a Paola de Oliveira com a Maria Fernanda Cândido naquela série “Felizes pra sempre”?

_É mãe, é parecido com isso… — mas deixa a minha vida em paz e vai ver sua televisão.

Percebeu que aquela chatice do ranking do Campeonato Paulista já deixava o Bonner com aquele sorrisinho final. Precisava se apressar. Lavar toda a louça. Sabia que o Santo, o galã da Novela Velho Chico, tinha morrido ao nadar no Rio São Francisco. Quando o jornal terminou nem teve musiquinha, um silêncio, por isso ela quase perde o começo da novela. Santo morreu, mas ia casar com Tereza, como aquilo era possível?

Hoje é dia de Profissão Repórter. Estava curiosa para ver o drama das pessoas com câncer que não conseguiam atendimento em hospitais públicos. Mas o que realmente aguardava era finalmente poder ver a estreia de SuperMax. Tinha acompanhado tudo no VideoShow. Estava terminando de temperar a salada para servir fresquinha na mesa quando ouviu a música do Michael Jackson, tanratâ tanrantã tan tan tan. Mariana Ximenes e Cleo Pires falaram ao Otaviano Costa que seria um novo Big Brother, com Pedro Bial na Amazônia! Nossa! Aquilo seria incrível! Um reality no meio da floresta e com suas atrizes preferidas! Elas ainda iriam concorrer a um super prêmio em dinheiro. Mas ela já eram tão ricas… Deviam fazer aquilo pela fama e pela aventura, pensou.

Quando a estagiária do Caco Barcellos entrevistou uma senhora que fazia o papel de enfermeira do seu marido no hospital, ela chorou. Como pode uma coisa daquelas? Cadê os políticos desse país? Todos corruptos!! Lembrou de novo do Silvio Santos e zapeou para o SBT, mas antes parou no programa da Sabrina Sato. Aquela garota também era do Big Brother. Ela bem que poderia participar de SuperMax. Mas nenhum brother estava na nova série, só o Bial. Estranho. Zapeou mais um pouco e viu que Danilo Gentili estrevistava a Elke Maravilha. A Elke trabalhou com o Sílvio muitos anos e ele nunca falou da roupa dela. Mas a Elke usa roupa, maquiagem, sapatos e cabelo de televisão. Nunca tinha visto ninguém igual a Elke. Só estrela de televisão.

No café de fim de tarde, estava assistindo o Datena falando sobre um caso do cunhado da Ana Hickmann. Ele matou o fã em legítima defesa. Como pode alguém imaginar que vai ficar com uma estrela de televisão? Mas tem gente que é assim, se confunde com o que está na tela. Chega um lunático desse e sai querendo matar todo mundo. Isso é coisa de filme de ação. Teve tanto medo que foi certificar-se se tudo estava devidamente trancado. Não podia dar bobeira como a Ana Hickmann que quase parte dessa pra melhor.

Mas e SuperMax? Estava perdendo. Já devia ter começado! Já estava cansada de ver Tatá Werneck e Fábio Porchat se beijando. O que eles estavam pensando? Que vale tudo pela audiência? Ela não! Só assistia a programas e novelas de qualidade. Todos os dias acompanhava o Jornal Nacional, o melhor da televisão brasileira. Se mantinha informada pelo Facebook no seu smart. Sabia que a Sacha tinha virado modelo e que o Jean Willys tinha cuspido no deputado. Naquele deputado que quer estuprar mulheres. Um horror!

Mas onde estava o controle? Devia ter deixado cair debaixo do sofá. Só pode. Estava bem ali, na mesinha ao lado. Afastou o sofá já nervosa. Com certeza SuperMax já devia ter começado. O Bial já devia estar falando, e ela perder o controle assim? Era a última vez dele. Ela já tinha visto no instagram do Tiago Leifert. Ele era seu novo substituto. Procurou o objeto por toda a sala enquanto o Porchat batia na bunda da Gretchen. Aquela mulher não tinha morrido? Olhou debaixo do rack, da mesa de jantar. Tinha se levantado? Foi até o quarto, revirou lençóis, olhou debaixo da cama. Nada. Foi ao banheiro, olhou sobre a pia. Onde podia ter deixado esse controle?

Respirou fundo. Precisava ter calma. Podia estar na cozinha! Claro! Refez mentalmente seu percurso da cozinha. Quando a Sato começou uma entrevista com BelaGil ela tinha se levantado e ido tomar água. No copeiro não estava, mas podia estar dentro da geladeira. Óbvio! Quantas pessoas não esquecem até celular dentro da geladeira? Revirou frutas, legumes, travessas. Tirou tudo. Bebeu mais um copo d’água. Comeu um pedaço que restava do bolo de chocolate. Ela estava perdendo a estreia de Supermax enquanto a Tatá não parava de cantar com aquela voz terrivelmente desafinada.

Como poderia dormir sem assitir aquela estreia? O que seria da sua vida? Como poderia acompanhar a série sem ver o primeiro capítulo? Ele era essencial! Se o perdesse não teria mais como acompanhar SuperMax e estaria obrigada a zapear entre o Gentili ou talvez o novo programa do Porchat. Estava torcendo tanto pela Mariana Ximenes… Ela merecia ganhar o prêmio. Deve ser um sacrifico horrível ficar enclausurada no meio da amazônia com um monte de gente estranha, só não a Cléo Pires, elas deviam se conhecer.

Suas noites estavam fadadas ao fracasso. Poderia jogar cartas com sua filha? Assistir ao Sílvio Santos maltratando um traveco? Poderia até tentar ver Dez Mandamentos, mas da última vez que viu um extintor de incêndio na Antiguidade sentiu até náuseas de assistir àquela novela. Não. Precisava ver a estreia de SuperMax! Urgente! Era a única saída para o seu fim de noite. O desfecho perfeito depois de um dia repleto de Louro José, Fátima Bernades e Chocolate com Pimenta no Vale a Pena Ver de Novo.

Ela nem tinha Netflix. Talvez fosse a hora de finalmente adquirir sua conta e assistir aquele tal de Heisenberg. Parece que tinha até um tal de Narcos com o Wagner Moura. Não poderia ser assim tão ruim. Ele fez o Olavo Novaes em Paraíso Tropical. Foi ótimo! Mas, não! Sua vida já tinha um cronômetro e não seria nada fácil inserir o Netflix nela. Novela das seis, novela das sete, jornal nacional, uma zapeada aqui e ali, entre Record e até TV Brasil, pra ver a Sônia Braga quando estava passando “O Beijo da Mulher Aranha”. Sentia falta dela na TV. Novela das oito. Mais uma zapeada quem sabe para rever um pouco a reprise de Maria do Bairro. E para encerrar sua noite precisava assistir à estreia da nova série. Não tinha como entrar Netflix! Era impossível! Se sentiu meio tonta e apagou. Clara, quando viu sua mãe ali estendida, não entendeu nada.

_Mãe, a senhora não estava vendo TV?

_Estava sim… — respondeu ainda um tanto atordoada — mas perdi o controle.

_A senhora perdeu o controle? Teve algum ataque histérico?

_Não! Perdi o controle remoto enquanto estava vendo a Tatá Werneck. Perdi a estreia de SuperMax!

_Mas mamãe por que a senhora não mudou o canal na própria televisão?

_É, minha filha, acho que realmente perdi o controle.

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