Sobre inícios: como gerar impacto e conquistar o leitor para a sua história

Colecionar bons inícios é um hábito que todo escritor deve ter. Inaugurar um mundo fictício significa romper um estado anterior. Para construir essa sensação de preparo é necessário um cuidado extra não apenas na escolha ou preparação da cena, mas em como isso será dito.

Uma obra literária não é apenas um relato, mas uma forma de contar em que a palavra cria um mundo novo. É inevitável que, no início, o silêncio seja rompido, dialogando com referências culturais, com outras obras e outros escritores que façam parte do pacto invisível entre escritor e leitor.

O objetivo deve ser chegar em uma fórmula capaz de dar conta da novidade, mas que também seja inteligível e capaz de atrair.

Vamos analisar aqui 4 estratégias para você considerar nas escolhas sobre como iniciar seu conto, romance ou novela que funcionem como uma síntese, uma apresentação da obra como um todo e consiga também encantar e enlaçar o leitor para sua história.

Para isso, precisamos aprender, com os mestres da literatura, a bolar um convite irrecusável para um novo universo desconhecido, mas que promete. Vamos lá!

1.APRESENTAÇÃO DO NARRADOR

Uma das preocupações que devemos ter ao iniciar nossa história é sobre a consciência da escolha do foco narrativo e como podemos apresentar a voz do narrador de forma interessante. Vamos com o mestre Machado de Assis em “A Cartomante”

HAMLET observa a Horácio que há mais causas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.

No conto, a primeira frase do primeiro parágrafo já nos apresenta o brilhante narrador irônico do escritor que se coloca acima dos personagens. Ao comparar a fala de Rita com a de Hamlet, afirmando que aquela citava o famoso personagem sem saber, já incita o leitor com uma espécie de tragédia anunciada.

Ao mesmo tempo, o narrador faz troça da ignorância da personagem, inaugurando uma focalização onisciente não tão neutra, que irá, durante o desenrolar da trama, relevar as diferentes vozes dos personagens para a construção da tensão da história.

2.O TOM DA HISTÓRIA

Entender o tom da história e começar mostrando ao seu leitor qual o clima em que a trama estará submersa pode ser definitivo para alguém continuar ou não na leitura.

UM EDIFÍCIO CINZENTO E ATARRACADO, de trinta e quatro andares apenas. Acima da entrada principal, as palavras CENTRO DE INCUBAÇÃO E CONDICIONAMENTO DE LONDRES CENTRAL e, num escudo, o lema do Estado Mundial: COMUNIDADE, IDENTIDADE, ESTABILIDADE.

Acho que nem precisa dizer que estamos diante do primeiro parágrafo de Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley. O tom de distopia é inaugurado de forma certeira: sabemos que estamos diante de uma obra que dialoga com os clássicos 1984 e Fahrenheit 451, mas que inaugura um universo singular de crítica e absurdo sobre um possível futuro da humanidade.

3.PALAVRAS ARREPIANTES: O ESTILO

Construir o estilo da sua escrita é fundamental e o bom escritor costuma caprichar nos inícios, momento em que precisa seduzir o leitor por meio de palavras. Nada mais impactante que o estilo da nossa maravilhosa Clarice Lispector. Vamos de O ovo e a galinha.

De manhã na cozinha sobre a mesa vejo o ovo. Olho o ovo com um só olhar. Imediatamente percebo que não se pode estar vendo um ovo. Ver um ovo nunca se mantém no presente: mal vejo um ovo e já se torna ter visto um ovo há três milênios.

Uma boa história cativa, mas o que entendemos como obra literária, diz Terry Eagleton, consiste em “tomar o que é dito nos termos como é dito”. A linguagem é constitutiva da experiência e não apenas mero veículo, reforça o crítico literário. O trabalho de burilar o texto é fundamental. Vejamos nosso exemplo acima.

A escritora trabalha o ritmo e cadência das frases de forma a tornar o primeiro parágrafo uma espécie de prosa poética. A repetição da palavra ovo gera um efeito estético que nos faz entrar na reflexão e no fluxo de consciência da personagem sobre a compreensão filosófica da origem e do ser. Um estilo que é a marca de Clarice Lispector. O desafio do escritor está justamente em encontrar o seu estilo. A sua palavra.

4.ATITUDE EMOCIONAL

Uma história pode conquistar o leitor, utilizando técnicas para emocionar o leitor logo de cara, sem ficar dando voltas. Logo no início, lança um conflito profundamente interessante a ponto de despertar tamanha emoção no leitor que ele se sente obrigado a saber, afinal, qual será o destino daquela personagem. Vamos com um mestre na construção de efeitos literários potentes: Ernest Hemingway.

Era um velho que pescava sozinho em seu barco, na Gulf Stream. Havia oitenta e quatro dias que não apanhava nenhum peixe. Nos primeiros quarenta, levara em sua companhia um garoto para auxiliá-lo. Depois disso, os pais do garoto, convencidos de que o velho se tornara salao, isto é, um azarento da pior espécie, puseram o filho para trabalhar noutro barco, que trouxera três bons peixes em apenas uma semana.

Não tem como não querer continuar na história desse velho para conhecer o motivo de tanto azar. A gente mal começa a ler e já se sente completamente envolvido pelo personagem que, miseravelmente, não consegue pegar nada há oitenta e quatro dias!

Há uma construção de empatia muito intensa na medida em que nós nos identificamos com tamanha miséria. Afinal, todos nós também vivemos nossos sofrimentos e a dor das personagens muito nos interessa.

Listei apenas quatro estratégias, mas há ainda muitas possibilidades quando se pensa no estilo de cada autor e as mais diversas estratégias literárias para a construção de tom, por exemplo.

Para esse post vamos ficar com aquilo que considero fundamental: foco narrativo, tom, estilo e empatia. Mas como boa colecionadora de inícios trarei aqui outros posts sobre esse tema. Espero que curtam! 🙂

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