4 técnicas narrativas de Cat Person: o conto de 1 milhão de dólares

 Diante de fenômenos virais como fotos e vídeos de gatinhos fofos, um escritor pode se sentir desanimado em escrever para uma audiência nem sempre disposta a ler mais que 280 caracteres. No entanto, Kristen Roupernian é uma prova de que a literatura no digital resiste e que, sim, um conto de 20 páginas pode ser um fenômeno de público impressionante.

 A escritora, antes desconhecida, gerou interesse ao publicar um conto na revista New Yorker, em 2017, que superou o número de acessos de todos os outros trabalhos publicados naquele ano. Devido a repercussão, a escritora fechou um contrato para um livro, que incluía Cat Person, de nada menos que 1 milhão de dólares! No Brasil, os direitos foram comprados pela Companhia das Letras.

Antes de levantar teorias da conspiração ou alguma jogada de marketing mirabolante, prefiro entender quais ferramentas a escritora mobilizou e que podem justificar o sucesso do conto.

Listei aqui 4 técnicas muito bem exploradas por Roupenian que todos escritor deve conhecer para textos mais engajantes. Contém spoiler!

1. Empatia

Uma das principais potências da ficção é a empatia. Desde Platão e Aristóteles há uma rica discussão de como a ficção mobiliza a empatia e certamente a resposta passa pelo processo de identificação. Isso significa que o escritor deve ter um interesse vivo pelas peculiaridades das pessoas. Quer uma experiência mais potente de empatia do que escrever sobre uma noite de sexo não muito legal que a maioria de nós já viveu?

O crítico James Wood cita um interessante exemplo de empatia do escritor, a personagem Elizabeth Costello, uma famosa romancista criada por Coetzee. Costello diz que imaginar como é ser um morcego é a própria definição de um romancista.

“Posso imaginar ser um cadáver, diz Costello, por que não posso imaginar ser um morcego?”

Gerar no leitor a possibilidade de se colocar no lugar de quem sofre, exige do escritor desenvolver conflitos que qualquer um poderia viver também. Em Cat Person, a história de Margot, de 20 anos, e Robert, de 34 anos, temos um vivo exemplar da potência da hashtag: #metoo. Milhares de mulheres conseguiram se ver exatamente na mesma situação de Margot: administrando um flerte inicial para algo que se tornaria a pior decisão de sua vida.

2. Trama Profunda

Quando escrevemos devemos ter em mente o efeito que queremos gerar para o leitor. Sobre o que gostaríamos de refletir com essa história? A literatura é a exploração do humano e a história em si, a sucessão de acontecimentos, é uma estrutural superficial que deve estar totalmente carregada de significados. É a camada profunda do texto de que trata Ricardo Piglia.

Do ponto de vista superficial Cat Person poderia ser apenas a história de “uma garota egocêntrica e crítica que se envolve com um cara pelo qual não tem atração física”, diz um leitor aparentemente desavisado nas redes sociais. No entanto, quem lê o conto percebe que a escritora desenvolve certa densidade simbólica no fio condutor da trama. Destaco aqui a diferença de idade da protagonista em relação a Robert.

O jogo entre Margot e Robert se torna controverso justamente porque ela, muito jovem, idealiza uma relação, aliás, como muitas de nós, em virtude de sua inexperiência. Já Robert, experiente, demora a aceitar o flerte, o que gera ainda mais ansiedade por parte da protagonista. Essa tensão é importante para efeito equívoco do clímax do conto.

“Ela é tão perfeita, ela o imaginou pensando. Ela é tão perfeita, o corpo dela é perfeito, tudo nela é perfeito, ela tem só vinte anos, a pele dela é impecável, eu quero transar com ela, quero transar com ela mais do que jamais quis com qualquer outra pessoa, quero tanto que acho eu vou morrer” 

3. Narrador não confiável

Uma dos temas que mais me fascinam na escrita criativa é com certeza como construir um narrador interessante e potente para a história. Um narrador mal construído pode detonar a construção do efeito que você precisa gerar na sua história ao passo que um narrador bem desenvolvido consegue tornar uma história, aparentemente simples, em uma trama complexa.

Roupenian trabalha com muita habilidade o discurso indireto livre, técnica narrativa que permite construir um relato entre a onisciência e a parcialidade. O narrador de Cat Person evidencia a posição de dubiedade de Margot:

Não era exatamente medo de que ele tentasse forçá-la a fazer algo que não queria, mas insistir em parar agora, depois de forçar a barra para continuar, a faria parecer mimada e instável, como se tivesse pedido um prato num restaurante e, assim que a comida chegasse, mudasse de ideia e pedisse para devolver

Pra mim esse parágrafo reflete muito toda a tensão e dubiedade da trama. Se por um lado, Margot acredita que seria inconveniente demais dizer que não queria mais, por outro sabemos que isso pode ser insegurança e que ela poderia muito bem interromper o processo, ainda que fosse muito desagradável.

Essa divergência é a polêmica que mobiliza , não apenas mulheres, mas também homens, uma grande discussão nas redes sobre o conto. O artifício permite que todos, de certa forma, estejam corretos, considerando que cada um se relaciona de forma singular com a história. Para mim, esse é o efeito mais surpreendente de Cat Person!

Cabe ainda dizer que a onisciência é seletiva da mente de Margot, o que gera um efeito de conhecer a história a partir da vivência pessoal da personagem, mesmo que escrito em terceira pessoa. Talvez por isso a maior parte dos leitores engajados sejam mulheres.

4. Temática

Por fim chegamos a um dos pontos principais que justificam o fascínio de Cat Person: tratar dos relacionamentos contemporâneos de uma perspectiva feminista.

Eu particularmente defendo o lugar de fala na literatura. Poder acompanhar uma história em que a protagonista é uma mulher escrita por uma mulher com certeza gera um processo de empatia visceral. É dar voz a histórias que nunca tinham sido contadas sob essa perspectiva.

Mas acredito também que apenas escrever sobre uma temática relevante é insuficiente para que tenhamos uma boa história. A ficção é, antes de qualquer coisa, a capacidade de se colocar no lugar do outro. Um escritor deve ter a liberdade de escrever o seu ponto de vista sobre o outro seja ele quem for.

Assim como o leitor pode empatizar com um velho em uma luta feroz com o mar, também pode se perceber como com uma madame que se chama Emma Bovary ou se sentir uma menina nordestina com o esquisito nome de Macabéa. Literatura é, antes de ser um panfleto, arte e arte sobre o humano.

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